Afinal de algo adiantou aquele extenso relatório. Doloroso no meu tempo e na minha alma. Na Sexta, o menino triste e apático, como se um toque de mágica o tivesse marcado, sorria e seus olhos brilhavam. Estranhei e não consegui descobrir a razão. Na verdade, até dentro de mim se fez sentir luz. Hoje, junto à mãe, conseguimos descobrir a razão desse brilho: a assistente social trouxe boas novas. A família poderá vir a ter direito ao rendimento mínimo, o que implica mais comida e ar... Sim, porque a falta de ar impede que os olhos azuis daquele menino possam brilhar!
E não devem todos os meninos do mundo ter direito a um sorriso, a um brilhozinho no olhar?... E no entanto, tantos são os que parecem não o saber... talvez aqueles que mais podiam lutar para que tal estivesse ao alcance de todos os meninos... Mas tu sabes Paulo, que o pouco que poucos fazem, é muito para os que tanto precisam dum pouco que seja... Pensa sempre que por pouco que faças, fazes tudo o que podes... Se cada um fizesse a parte que lhe cabe, não veríamos olhares tristes, sorrisos apagados, rostinhos fechados...
E no entanto, tantos são os que parecem não o saber... talvez aqueles que mais podiam lutar para que tal estivesse ao alcance de todos os meninos...
Grande verdade, Lúcia. Que dor, enquanto estive na Educação Especial (e neste caso não me refiro ao trabalho com alunos portadores de deficiência) e verificar que muitos não eram capazes de detectar a existência de crianças e adolescentes que não sorriam. Casos de violação e outros mau tratos... Histórias de vida dolorosas em tenras idades que acredito marcarem para toda uma vida. Quantas vezes me interroguei acerca do "porquê". Divorciei-me da religião!